quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Baseado em uma história real dos anos 1970, 'Infiltrado na Klan' é um Spike Lee necessário e assustadoramente atual


Dobradinha do diretor com o produtor Jordan Peele estreia no Brasil dia 22 de novembro e tem sessões programadas para o Festival do Rio, incluindo em Niterói. Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, filme renova a carreira de Lee e pode ser forte candidato na corrida ao Oscar

Marcella Vieira*

De documentários a curtas, de clipes musicais e séries de TV, além, é claro, dos filmes. Muitos filmes. Spike Lee é, definitivamente, um diretor prolífico. E tudo isso combinado à já tradicionalíssima presença que ele sempre marca nos jogos de seu amado time de basquete de Nova York, os Knicks (em 2016, ele estava lá, torcendo no Madison Square Garden, em plena noite do... Oscar). E nessa potente carreira que já ultrapassa três décadas, é natural a existência de altos e baixos, de momentos de maior ou menor reconhecimento. Com “Infiltrado na Klan”, filme que ganhou o prestigiado Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, Lee mostra mais um de seus talentos: a capacidade de reinvenção. Nesse caso, ele conseguiu um auxílio luxuoso ao se unir com o badalado ator, diretor e roteirista Jordan Peele, do sucesso de 2017 “Corra!”. Peele é um dos produtores de “Infiltrado...” (cujo ótimo título original é “BlacKkKlansman”), o que é um empurrão mais do que bem-vindo à carreira de Spike Lee para as novas gerações. Não à toa, sua carreira ganha uma interessante retrospectiva em mostras simultâneas que ocorrerão nos Centros Culturais Banco do Brasil de Rio, São Paulo e Brasília, nos meses de novembro e dezembro. 
 Com uma pegada vintage, um turbilhão de referências, baitas homenagens a personagens e ativistas negros, incrível trilha sonora e cenas repletas de ritmo, o filme não decepciona e mantém uma conexão muito especial com o público, seja ele formado por fãs do diretor ou por uma nova geração que talvez sequer o conhecesse. É um filme pop por excelência, das roupas às músicas, passando pelas boas (sempre contundentes, nunca exageradas ou fora de hora) piadas. Quando citamos essas características, a impressão é de um filme de tema leve e banal. Ao contrário, o que dá sustentação a tudo isso não tem qualquer leveza: é a história real, ocorrida no final de década de 1970, do policial negro Ron Stallworth– o primeiro a ingressar no Departamento de Polícia da cidade de Colorado Springs, no estado do Colorado – que se infiltrou na filial do grupo racista KuKluxKlan em sua cidade.
O trabalho de investigação foi feito em parceria com o colega FlipZimmerman, policial branco que se passava por Stallworth nas reuniões do grupo. E é essa parceria que garante momentos excelentes, ora engraçados, ora tensos, nas relações que os dois estabelecem com a KKK. Os absurdos e preconceitos horrendos que ambos ouvem e presenciam (Zimmerman, que é judeu, é obrigado a ouvir barbaridades antissemitas quando está na companhia dos membros da organização) em nome da investigação são de embrulhar estômagos. Mas eles persistem em prol de uma ação maior, que consegue, inclusive, deter ações de violência que vinham sendo planejadas pelo grupo. Em meio a tudo isso, Stallworth ainda equilibra um início de relacionamento com Patrice, uma jovem ativista do movimento negro estudantil.
 O trio principal de atores carrega seus papeis com uma vivacidade bonita. Eles são claramente bem dirigidos e sabem dar nuances a seus personagens. John David Washington (da série “Ballers”) empresta de tudo a seu Ron Stallworth: carisma, leveza, esperteza, ousadia, insegurança. Adam Driver – o KyloRen nos novos filmes da saga Star Wars, ator hipster que virou galã improvável com a série “Girls” e que vem acumulando trabalhos com grandes diretores como Scorsese e Steven Soderbergh – também carrega bem o misto de desconforto e ojeriza que a investigação causa em seu personagem com um sentimento crescente de parceria (apesar de alguns estranhamentos) em relação a seu colega. Laura Harrier, que despontou no cinema com “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, dá vida a uma Patrice sempre desconfiada de Ron, sempre alerta em relação às brutalidades da polícia com os negros e lealmente apegada aos ideais do movimento estudantil do qual fazia parte.
 Os coadjuvantes do filme, incluindo os membros da KKK e os demais colegas de Departamento de Polícia de Ron e Flip, compõem muito bem a loucura que parecia ser a investigação. Um dos policiais, o engraçado Jimmy Creek, é interpretado por Michael Buscemi, irmão de Steve Buscemi. No outro polo, o ator Paul Walter Hauser mostra que vem se especializando em fazer o estilo whitetrash (ele já havia roubado a cena com um tipo parecido em “Eu, Tonya”). E é com a ajuda desses personagens secundários que entram diálogos muito bem afiados com aquela que parece a clara proposta do filme: atualizar uma história que tem quase 40 anos. Em um desses diálogos, o sargento Trapp, chefe direto dos dois policiais, conversa com Ron sobre as grandes possibilidades de um futuro presidente dos EUA corroborar as barbaridades defendidas pela KuKluxKlan, mas de um jeito mais palatável para o grande público americano. A política sendo usada para vender ódio. Stallworth não acredita e seu chefe devolve: “Para um negro, você é muito ingênuo”. Nem é preciso dizer que Trapp adivinhou em cheio. A propósito, numa das casas onde se dava um encontro de integrantes da Klan, uma foto da campanha de Ronald Reagan (presidente Republicano dos Estados Unidos de 1981 a 1989) estampava a parede. 

Assista ao trailer de Infriltrado na Klan

E é essa a mira de Spike Lee o tempo todo no filme: fazer com que, muito tristemente e muito desconfortavelmente, transportemos vários daqueles discursos para os dias de hoje, para os políticos (em altíssimos cargos, diga-se de passagem) de hoje, para o ódio que permeia as relações políticas de hoje – e de tantos outros tempos. Nessa trajetória da improvável história do policial infiltrado, o diretor mostra seus tons de ativismo (algo que tanto tentam criminalizar lá e aqui), incomoda e emociona em vários momentos. O depoimento de um personagem fictício interpretado pelo grande Harry Belafonte; a exibição de “O nascimento de uma nação”, filme do início do século XX cultuado por racistas norte-americanos, em uma cerimônia da KKK; a câmera quase colada nos rostos dos atores numa bela homenagem aos filmes da Blaxploitationsão alguns dos muitos exemplos do misto de sentimentos que o diretor consegue causar na plateia ao longo do filme. Os links ficam completos com as cenas finais do filme: assustadoramente reais e recentes, muito recentes.
 Um dos tantos personagens da Klan que causa profundo incômodo é David Duke, ex-líder (real) da organização racista, negador do Holocausto e figura (ainda) proeminente entre os supremacistas brancos dos EUA. Sua fala lenta e supostamente mansa é carregada de ódio e preconceito. E assim ele carrega uma legião de seguidores, como o casal Kendrickson, que reúne a dona de casa supostamente simpática e inofensiva ao sujeito paranoico e misógino, ambos racistas até os últimos fios de cabelo.
 Aliás, se o nome de David Duke está soando familiar para o leitor, há razões bastante atualizadas: ele foi uma das vozes da marcha de supremacistas em Charlotsville, em 2017. E há poucas semanas, durante o período eleitoral, seu nome esteve em voga em diversos veículos de imprensa do Brasil por ele ter elogiado, em seu programa de rádio, um dos então candidatos à Presidência. Em suas declarações, Duke afirmara que o político “soa como nós” e é “um nacionalista”. Não é difícil adivinhar de quem ele falava.

"Infiltrado na Klan" está previsto para estrear no Brasil dia 22 de novembro, com distribuição da Universal Pictures. Antes, o filme tem mais três exibições no Festival do Rio, incluindo uma em Niterói. Confira os dias, horários e locais:
 7/11 (quarta-feira) – 18h30 – Reserva Cultural Niterói (sala 1)
9/11 (sexta-feira) – 16h – Estação NET Ipanema (sala 2)
10/11 (sábado) – 18h40 –Kinoplex São Luiz (sala 2)

*Marcella Vieira, jornalista, está na cobertura do @Festival do Rio pelo Jornal Casa da Gente.  


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Em tempos de #MeToo e Time’sUp, 'Be Natural' conta (finalmente!) a história da mulher que foi pioneira do cinema


Apagado dos registros da história cinematográfica, o nome de Alice Guy-Blaché, contemporânea dos irmãos Lumiére, volta à luz por meio de bom documentário produzido e narrado por Jodie Foster

por Marcella Vieira*

Não é sempre que vemos um filme que tem como produtores executivos Jodie Foster, Robert Redford e Hugh Hefner (sim, o criador da Playboy). A explicação parece simples: esses e tantos outros grandes nomes têm em comum a paixão pelo cinema.
E foi para evitar um dos maiores apagamentos da história do cinema que eles se uniram (financeiramente ou com outros tipos de apoio, como depoimentos) para viabilizar o documentário "Be natural: a história não contada da primeira cineasta do mundo". Nascida em 1873, a francesa Alice Guy-Blaché foi uma pioneira não apenas para as mulheres no cinema, mas para o cinema em geral, com suas técnicas de uso da câmera, na sincronização de sons, na colorização, na comédia. Enfim, em tantos aspectos que definiram a forma de se fazer a sétima arte.
Ela foi contemporânea – e frequentadora dos mesmos círculos, ainda no século XIX – dos irmãos Auguste e Louis Lumière, de Georges Méliès e de Thomas Edison. Os homens citados, todos inegavelmente geniais, receberam muitos créditos por suas contribuições e invenções. Alice, que subverteu todos os papéis esperados de uma mulher daquela (e de tantas outras) época recebeu o quê? Ostracismo, dívidas, nenhuma notoriedade, crédito algum.
Muitos de seus filmes (e foram mais de mil!) simplesmente foram perdidos e não deixaram qualquer registro. E aí entra o excelente faro investigativo – uma das mais características mais bonitas e necessárias do gênero documentário – da diretora e pesquisadora Pamela B. Green, que sai em busca de rastros, vestígios e descendentes de Alice. Pequeno spoiler: ela encontra até a tataraneta da cineasta.
Green também entrevista diversos professores, acadêmicos, historiadores. E o principal: muitos atores e diretores, nomes importantes de Hollywood, que admitem nunca terem ouvido falar de Alice Guy-Blaché. De Peter Bogdanovich a AgnèsVarda, passando por Patty Jenkins e Peter Farrelly. Geena Davis, a atriz que advoga incansavelmente pela equidade de gêneros na indústria com seu InstituteonGender in Media, também dá seu depoimento.
Em um belo registro de amor ao cinema, Green recorre a colecionadores e à Biblioteca do Congresso Americano, onde algumas das obras de Alice ainda se encontram. E é assim, de documentos em documentos, de restos e sobras, que ela vai montando a colcha de retalhos que vai trazendo a cineasta francesa de volta à superfície.
O filme passou por Cannes 2018, pelo Festival de Londres e vem tendo exibições especiais nos Estados Unidos, sobretudo em painéis e eventos ligados à presença feminina na(s) indústria(s). Mas, em pleno ciclo dos (essenciais) movimentos #MeToo e Time’sUp, ainda parece muito pouco. O filme só pôde ser iniciado por causa de uma ação de financiamento online, mas teve dificuldades para ser concluído. As figuras famosas que aderiram ao projeto (Jodie Foster é, além de produtora, a narradora oficial do documentário) certamente deram um bom empurrão. Martin Scorsese, empenhado desde a década de 1990 na preservação da história do cinema com sua The Film Foundation, também é um que ganha agradecimentos especiais. Mas nada disso parece o suficiente para que o filme tenha um percurso sólido nos circuitos de cinema tradicionais. 
O apagamento de mulheres da história é, infelizmente, um projeto bem-sucedido de um mundo marcado pela brutal desigualdade de gêneros. "Be Natural" é uma pontinha, uma fagulha que, num momento tão crucial, tenta subverter essas regras. Que o nome de Alice Guy-Blaché seja falado em alto e bom som, com o título que ela merece: a de primeira cineasta do mundo!
O filme teve três sessões no Festival do Rio: dias 3, 4 e 5 de novembro.

*Marcella Vieira, jornalista, está na cobertura do Festival do Rio pelo Jornal Casa da Gente.  

RioMarket: área do Festival do Rio voltada ao mercado do audiovisual tem programação variada

Por Luana Dias

Seminários, workshops com profissionais renomados, rodadas de negócios e debates acontecem na Casa Firjan, em Botafogo                                         

Até o dia 10 de novembro a Casa Firjan, em Botafogo, vai abrigar a edição 2018 do RioMarket – área do Festival do Rio dedicada ao mercado audiovisual. Diretores, produtores, criadores, técnicos e outros profissionais da indústria debatem temas como: inovação, algorítimos e data science, realidade virtual, blockchain, VOD, influencers, branded content, modelos e oportunidades de negócios, cases de sucesso, financiamento, coproduções internacionais, entre outros.A programação conta com uma série de workshops, palestras, seminários, debates e rodadas de negócios com alguns dos profissionais mais renomados do setor. As inscrições para o evento podem ser feitas no site www.riomarket.com.br.

O RioMarket tem como objetivo contribuir para o desenvolvimento da indústria audiovisual, promovendo a troca de conhecimentos, proporcionando novas oportunidades de negócios e capacitação para profissionais do mercado. As discussões abrangem os nichos de cinema, televisão e séries, publicidade, games e influenciadores digitais. Além da programação paga, o evento conta também com uma série de atividades gratuitas. 
Temas atuais e diversos sobre o momento do mercado serão debatidos nos Seminários (Rio Seminars). Executivos das principais distribuidoras e exibidores estão presentes fazendo juntos uma profunda avaliação do setor em 2018, apresentando suas perspectivas para 2019 e propondo soluções. Nos painéis sobre Cinema, serão tratados assuntos como modelos de financiamento do desenvolvimento à comercialização, coprodução internacional, ocupação das salas, capacitação, entre outros. O nicho das séries também contará com painéis que discutirão a realidade do cenário atual e as tendências do mercado. Estratégias de lançamento, modelos de negócios de séries de ficção e não-ficção, transmídia ebrandedcontent serão explorados à luz de cases de sucesso apresentados por profissionais de todas as áreas envolvidas.
A Realidade Virtual volta à pauta do RioMarket em 2018 sob a ótica de criadores, produtores e distribuidores, que vão abordar a tecnologia e as particularidades do segmento. A utilização de influenciadores digitais em projetos audiovisuais também será um assunto bastante explorado, através da apresentação de cases.
A novidade da edição 2018 é a série de encontros denominada "ThinkTank", organizados no âmbito das Round Tables, que tem como objetivo discutir soluções para maximizar lançamentos e reverter a baixa ocupação das salas de cinema. Representantes dos departamentos de marketing e de programação de distribuidoras e exibidores estarão reunidos para debater o assunto e encontrar soluções em uma ação colaborativa e inédita. Um segundo encontro entre executivos das distribuidoras e das mídias tratará de “Soluções para maximizar os lançamentos através de mídias parceiras”.
Como de costume, representantes dos principais players e distribuidoras estarão disponíveis nas Rodadas de Negócios e encontros pré-agendados.

O diretor francês Olivier Assayas falará sobre seu
processo criativo
Programação gratuita
Dentro da programação haverá uma série de eventos gratuitos, como um encontro entre o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira (“Me Chame Pelo seu Nome”) e o cineasta francês Olivier Assayas (“Personal Shopper”), um workshop de roteiro com o autor Carlos Lombardi, seminários sobre games e realidade virtual, entre outras atrações. As inscrições para os eventos gratuitos devem ser feitas previamento no site www.riomarket.com.br.
Nesta segunda, dia 5 de novembro, haverá  o encontro "Realidade Virtual e Realidade Aumentada: O futuro é agora", às 14h. Às 15h30, o destaque vai para o seminário Processo Criativo com Olivier Assayas. O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira conversa com o diretor Olivier Assayas sobre seu processo criativo.
Alice Gomes será uma das palestrantes no seminário
"Mulheres no Audiovisual"
Na terça, dia 6, é a vez da Master Class – Literatura brasileira como base para filmes e séries internacionais. A premiada autora e roteirista Sônia Rodrigues, com mais de 30 livros publicados, fala sobre o potencial da literatura brasileira para a adaptação em projetos de série ou filme de alcance internacional.  Uma master class aberta ao público em geral interessado no universo das séries e em literatura brasileira. Às 16h15, entra em cena o Seminário – Mulheres no Audiovisual II – O Olhar, a linguagem e o fazer feminino, com as diretoras e roteiristas Gabriela Amaral, Dominga Sottomayor, Susanna Lira e Alice Gomes.
No dia 8, às 15h30, é a vez do Seminário – Blockchain: Uma revolução no tráfego de conteúdo, com Pedro Souza, da Multiedgers, e Paulo Aragão, da Singular DTV, conversam sobre a tecnologia e suas aplicações no audiovisual e em outros segmentos. 
No dia 9, às 17h, tem o Seminário - Projetos que mudam o mundo com Fernando Grostein e Guilherme Melles (Spray Filmes), Marcos Nisti e Luana Lobo (FlowFilms), que irão vão debater sobre empresas que têm em seu DNA uma visão de futuro do Brasil e do mundo, englobando novas mídias e projetos sociais. Educação via internet e o projeto Quebrando o Tabu estão dentro da linha de ação dessas empresas. 
Para finalizar, no dia 10, às 16 haverá uma imperdível Masterclass de estrutura dramática de séries com Carlos Lombardi. Considerado um dos autores de maior atividade na dramaturgia brasileira, o autor Carlos Lombardi oferecerá uma master class inédita e exclusiva no Rio Market sobre a estrutura narrativa para obras seriadas.
As inscrições e programação completa no site www.riomarket.com.br . A Casa Firjan fica na rua Guilhermina Guinle, 211 - Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro.



domingo, 4 de novembro de 2018

Prestes a estrear no Brasil, 'As Viúvas' abriu o Festival do Rio com elenco excepcional e protagonismo feminino


Novo filme do diretor de '12 Anos de Escravidão' chega aos cinemas dia 29 de novembro. Encabeçado pela poderosa Viola Davis, o thriller abusa das reviravoltas e dos clichês do gênero, mas aposta na força das personagens femininas e pontua críticas contundentes à desigualdade racial na América

Marcella Vieira*

Na maratona do Festival do Rio, muitos cinéfilos preferem privilegiar os filmes que dificilmente terão vez no circuito de estreias aqui no Brasil. Por outro lado, muitos títulos passam como relâmpago pelo evento para, logo depois, chegarem arrasadores nas salas de cinema de todo o país, já de olho na temporada de prêmios que tem seu ápice no Oscar do ano seguinte. É o caso de "Infiltrados na Klan", novo filme de um afiadíssimo Spike Lee, e "As Viúvas", que teve sessão única na noite de abertura do Festival. O Jornal Casa da Gente já conferiu os dois, que têm estreias previstas no Brasil já nas próximas semanas.
"As Viúvas" é a volta aos cinemas do diretor Steve McQueen após o super premiado "12 Anos de Escravidão". O filme é bem diferente de suas obras anteriores, um thriller que mistura boas doses de drama, violência, perseguições com carros em alta velocidade e explosões (não deve ser à toa o fato de Liam Neeson e Michelle "Velozes e Furiosos" Rodriguez estarem no elenco). Ainda que com certos clichês do gênero – os excessos de reviravoltas e alguns aparentes buracos na trama –, há algo urgente e essencial no filme: as excelentes e incrivelmente determinadas personagens femininas.
E nisso o título do filme não engana: as protagonistas são, realmente, as viúvas de um grupo de criminosos mortos em uma ação que acabou não dando nada certo. Especialmente três delas, interpretadas por Viola Davis, sempre uma força nas telas, Rodriguez e a franco-australiana Elizabeth Debicki, mais conhecida do grande público como a Ayesha de "Guardiões da Galáxia – Vol. 2". Mais do que o baque emocional, a perda de seus maridos significou para elas dívidas e ameaças. Elas então se reúnem para um último ato, originalmente planejado por seus companheiros.
O protagonismo feminino atravessa toda a trama, que às vezes se arrasta, às vezes empolga, mas nunca decola. Parte muito grande desse protagonismo certamente se deve ao roteiro adaptado, em parceria com McQueen, por Gillian Flynn. A autora dos sucessos "Garota Exemplar", que chegou aos cinemas em 2014, e "Sharp Objects", recém-adaptado para a TV pela HBO, constrói mulheres marcadas por muitos contornos e pela dubiedade de seus atos. Um prato cheio para personagens femininas interessantes, complexas e fora de estereótipos que marcaram a indústria do cinema por tanto tempo. Em meio a uma narrativa de caos social em uma Chicago marcada por eleições, violência e corrupção, o diretor ainda aproveita para inserir no filme críticas afiadas à desigualdade e à brutalidade da polícia norte-americana contra os negros (em cenas de flashback que emocionam). Mas são apenas pitadas em um filme que não foge das clássicas regras de um thriller: reviravoltas, chantagens, traições e assassinatos.
Um dos méritos de Steve McQueen é reunir um baita elenco, incluindo atores consagrados em papéis considerados pequenos. Além das protagonistas e de Neeson como um dos maridos mortos, o filme conta com o veterano e excelente Robert Duvall e Colin Farrell, como pai e filho Mulligan que defendem o poder de um clã político que domina Chicago há décadas (com discursos e atos – públicos e privados – um tanto comuns nas famílias de políticos, seja lá, seja aqui, seja em qualquer lugar). Os irmãos Manning, interpretados por Brian Tyree Henry e pelo talentosíssimo Daniel Kaluuya (indicado ao Oscar de Melhor Ator por "Corra!"), são os novatos que tentam conquistar o espaço político antes ocupado exclusivamente pelas raposas da família Mulligan– ainda que por meios nada edificantes. Há ainda Jacki Weaver, Lukas Haas, Cynthia Erivo (essencial na parte final da trama) e o "Justiceiro" Jon Bernthal, sempre encarnando o tipo violento e desajustado, mesmo com participação muito curta.
"As Viúvas" teve sessão única no Festival do Rio, mas estreia em todo o Brasil, com distribuição da Fox Film no dia 29 de novembro.
  
*Marcella Vieira, jornalista, está na cobertura do @Festival do Rio pelo Jornal Casa da Gente.  

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Festival do Rio realiza exibições de mais de 200 filmes no Rio e em Niterói

Evento comemora sua 20ª edição com um catálogo diversificado de filmes e nacionalidades. Até 11 de novembro, serão exibidos títulos de aproximadamente 60 países, incluindo novidades de diretores consagrados, além de espaço para debates, workshops e seminários sobre o mercado audiovisual

Por Marcella Vieira*


Um dos maiores eventos de cinema do país, o Festival do Rio dá o pontapé inicial para sua vigésima edição nesta quinta-feira, dia 1º. Até dia 11 de novembro, pouco mais de 200 filmes de cerca de 60 países serão exibidos em diversas salas do Rio de Janeiro e de Niterói para alegria dos apaixonados pela sétima arte. Tradicionalmente realizado em outubro, as dificuldades causadas pela diminuição de patrocínios – o que já provocou mudanças no Festival desde o ano passado, quando passou a não ser mais apoiado pela Prefeitura do Rio, até então sua maior parceira – fez com que o calendário da maratona cinéfila atrasasse.
Apesar de um número menor de títulos (ano passado foram cerca de 250), não faltarão grandes estreias de diretores conhecidos e filmes que passaram com sucesso por festivais internacionais. A começar pela abertura, que ficará a cargo de “As Viúvas”, de Steve McQueen, diretor do 'oscarizado' “12 anos de escravidão”. Protagonizado pela premiadíssima Viola Davis, o filme terá exibição especial no Cine Odeon nesta quinta, a única antes de entrar no circuito normal, no final de novembro. Já o encerramento será com “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues, obra que representa o Brasil na tão sonhada vaga de indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Trailer de "As viúvas", filme que será exibido na abertura do Festival do Rio 

E por falar em filmes brasileiros no Oscar, o clássico “Central do Brasil”, que também comemora – pasmem! – 20 anos de lançamento, será exibido em duas sessões especiais, incluindo uma, sábado (03/11), no Estação Botafogo, que contará com as presenças de Fernanda Montenegro (indicada a Melhor Atriz pelo filme em 1999), Vinicius de Oliveira e o diretor Walter Salles. Como parte da mostra Clássicos & Cults, além de “Central...”, outros três clássicos do cinema nacional serão exibidos em cópias restauradas: “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, de Hector Babenco, e “Rio 40 Graus” e “Rio Zona Norte”, obras fundamentais e inspiradoras para a geração do Cinema Novo, ambas de Nelson Pereira dos Santos, o grande homenageado do Festival. Falecido em abril deste ano, o cineasta foi o criador do curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1968, e membro da Academia Brasileira de Letras. 

Mostras e diretores consagrados
Sessões de cinema do Festival são disputadas
(foto divulgação)
Além das noites de abertura e encerramento, 10 mostras darão o tom de pluralidade do Festival. A principal delas, "Panorama do Cinema Mundial", é a que traz as maiores estreias e os títulos mais aguardados, quase todos já exibidos em outros festivais nacionais ou internacionais. Filmes de figurões do cinema europeu, como Lars Von Trier e Mike Leigh, nomes consagrados do cinema americano, como Spike Lee, Gus Van Sant, Jason Reitman, Julian Schnabel e Barry Jenkins (de “Moonlight”, vencedor do Oscar 2017), além dos premiados “Assunto de família” e “Em chamas”, vencedores da Palma de Ouro e do prêmio da crítica em Cannes deste ano, respectivamente, “Não me toque”, Urso de Ouro no Festival de Berlim 2018, e “O mau exemplo de Cameron Post”, Grande Prêmio do Júri de Sundance (principal festival do cinema independente) no início do ano.
Mostras já tradicionais do evento, como "Expectativa", "Midnight", "Première Latina" e "Geração", estão garantidas. "Film Doc", "Midnight Docs" e "Itinerários Únicos" também integram o pacote, que tem na Première Brasil uma das maiores vitrines do cinema nacional, algumas das exibições de filmes responsáveis pelas principais sessões de gala do evento.
Serão 84 produções nacionais (ou coproduções), sendo 64 longas e 20 curtas. Desse número, 48 longas estarão na "Première Brasil", enquanto algumas produções nacionais estarão distribuídas em outras mostras como "Expectativa" ("Palace II – 3 quartos com vista para o mar" e "Pedro e Inês", uma coprodução Brasil, Portugal e França), Panorama ("O olho e a faca" e "Cano cerrado") e Midnight Docs ("Amazônia Groove" e "The Cleaners", coprodução Alemanha e Brasil).
A Première Brasil engloba também uma das partes mais aguardadas do evento: as premiações, tanto por parte do público (que escolhe seus preferidos nas categorias ficção, documentário e curta) como por parte do júri oficial – que terá, entre seus integrantes, os cineastas Joel Zito Araújo e Lúcia Murat –, que elege os melhores também nas categorias ficção e documentário.
Outra mostra competitiva dentro da "Première Brasil", que também conta com júri especializado, é a "Novos Rumos". Dedicada às obras de novos diretores com propostas diversificadas de linguagens cinematográficas, ela exibirá sete longas e sete curtas em sua seleção. Os filmes premiados escolhidos pelos júris oficiais receberão prêmios de R$ 200 mil para melhor longa de ficção da "Première Brasil" e R$ 100 mil para melhor longa da mostra "Novos Rumos".

Circuito e exibições em Niterói
Nos últimos anos, o Festival tem escolhido diferentes sedes para suas edições. São os QGs do evento, nos quais diversos profissionais – convidados, imprensa, organizadores e cineastas, entre outros – se encontram e participam de debates, palestras e conferências que movimentam o mercado audiovisual da cidade.  Espaços importantes do cenário carioca como o Centro Cultural da Ação da Cidadania, Armazém da Utopia (ambos na Zona Portuária) e Hotel Nacional já foram sedes em edições anteriores. 
Em 2018, o ponto de encontro do Festival será a Casa Firjan, espaço recém-inaugurado (aberto ao público em agosto deste ano) em Botafogo, bairro que reúne algumas das salas mais tradicionais do evento: Estação Botafogo e Estação Rio, ambas na rua Voluntários da Pátria.
Os outros espaços onde serão exibidos alguns dos principais títulos do Festival também são bastante conhecidos do circuito cinematográfico carioca, todos na Zona Sul: Roxy, em Copacabana, Estação Gávea, Estação Ipanema, São Luiz, no Catete, Instituto Moreira Salles, na Gávea, Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM), no Aterro do Flamengo.
No Centro da cidade, além do Odeon, o Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia, receberá sessões especiais e gratuitas de filmes brasileiros da Mostra Geração. Já a Zona Norte conta com um representante solitário: o Ponto Cine, em Guadalupe. 
"D.P.A. - o filme terá exibição gratuita no MAC, em Niterói
Niterói é a única cidade fora do Rio a receber a programação do evento. O Museu de Arte Contemporânea (MAC) receberá sessões ao ar livre nos dias 9 e 10 de novembro, sexta e sábado, às 19h, com as produções nacionais “Altas expectativas” e “Detetives do prédio azul – o filme”. Já o tradicional Cine Arte UFF e a sala 1 do espaço Reserva Cultural de Niterói exibirão diversos filmes das principais mostras.
A programação completa do Festival, com o circuito de exibição e preços de ingressos, pode ser conferida no site oficial do evento. A revista com toda a programação pode ser baixada aqui. 

RioMarket 2018
Em paralelo à exibição de filmes, o RioMarket é tido como a área de negócios do mercado audiovisual do Festival do Rio. A edição de 2018 será na Casa Firjan, de 5 a 10 de novembro. Com uma intensa programação, que reunirá mais de 80 palestrantes, o evento leva ao Rio uma série de seminários, workshops, debates e rodadas de negócios com produtores, players e profissionais da indústria do audiovisual. Algumas atividades são gratuitas, mas as inscrições prévias são necessárias para a maior parte dos painéis. A programação e os valores podem ser consultados em www.riomarket.com.br 

*Marcella Vieira é jornalista e mestre em Mídia e Cotidiano pela UFF.  

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Lisboa e turismo, uma relação em crise

Documentário português acompanha com ironia as recentes mudanças na paisagem urbana lisboeta decorrentes do crescimento do turismo

Por Cristiana Giustino*
(de Lisboa, especial para o CASA DA GENTE)


Rooftop de turistas no doc AlisUbbo (foto divulgação)

Sob intenso nevoeiro, pouco a pouco um transatlântico engole o horizonte da cidade. Um balé de gruas de construção emoldura esta que é a primeira cena de Alis Ubbo (2018), documentário de Paulo Abreu que teve sua estreia mundial no DocLisboa, festival internacional de documentários. No filme (cujo título em fenício significa porto seguro)somos apresentados à cidade de Lisboa e sua história através dos audioguias e dos relatos de um desiludido condutor de tuk tuk, cicerone do espectador pelas ruas do centro histórico. Estas fontes de informação, meio duvidosas e por vezes contraditórias, contribuem para a atmosfera de ironia e distopia que o diretor imprime na sua obra.

Mais certas são as informações transmitidas pela fictícia Rádio Tuk Tuk, escutada diariamente pelo protagonista do documentário. “Há 9 turistas para cada habitante da cidade”, informa o locutor da rádio. De fato, segundo o Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT), nos últimos anos, o número médio de turistas que visitam Lisboa anualmente é de 4,5 milhões, número nove vezes superior ao número de moradores, que é de 504 mil. Em Barcelona, o número de turistas é cinco vezes superior ao de moradores, e em Londres, quatro vezes maior do que o número de residentes.


A Rádio Tuk Tuk de Alis Ubbo contribui à narração do documentário


Também vem da Rádio Tuk Tuk a informação de que já chega a 34% o percentual de imóveis do centro ocupados por estrangeiros. Ou seja, mais de 1/3 das casas do centro histórico de Lisboa são utilizadas como residência temporária de turistas.O dado, cuja fonte é o Jornal de Negócios, abrange moradias de bairros como Alfama, Mouraria, Castelo, Baixa e Chiado.

Os brasileiros têm contribuído para esta realidade. O número de turistas provenientes do Brasil que visitaram Portugal em 2017 é de quase 870 mil, um recorde, com crescimento de 39% face ao ano de 2016, ficando atrás apenas do número de visitantes do Reino Unido, Alemanha, Espanha e França. Parte considerável dos brasileiros tem como destino a cidade de Lisboa, contribuindo à média de 4,5 milhões de visitantes ao ano.

"Não tenho nada contra o turismo", disse o diretor Paulo Abreu na sessão première do seu filme, ocorrida dia 20 de outubro. Mas ratifica a impressão, recorrente entre seus conterrâneos, de que a população local têm sido expulsa de sua própria cidade. O filme é um reflexo, poético, da “discussão de relação” que os lisboetas vêm travando com instituições públicas que deveriam regulamentar práticas abusivas de hospedagem e controlar a especulação imobiliária.

O turismo, comumente relacionado ao desenvolvimento local, promotor de aumento de renda e emprego, tem também seus efeitos colaterais: infraestruturas sobrecarregadas, impactos negativos sobre a natureza, ameaças à herança cultural e habitantes empurrados para fora das cidades. Segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, na sigla em inglês), Lisboa está entre as cidades onde os serviços públicos estão mais pressionados e a gentrificação, comum nesses casos, também tem se ampliado.

Ninguém nega que o turismo foi essencial para a retomada do crescimento econômico da cidade após a crise de 2008. Porém, as estratégias de fomento ao turismo adotadas em nível governamental, estimulando investimentos estrangeiros no centro histórico, vêm contribuindo para desequilíbrios na ocupação do tecido urbano.

Os mais atentos, ao caminharem pelas freguesias centrais da cidade, podem perceber uma imobiliária a cada esquina com anúncios de imóveis para compra e aluguel em suas fachadas. Por outro lado, há prédios inteiros, reabilitados e em excelentes condições de habitação, que se encontram fechados, dando sinais de que há uma bolha imobiliária prestes a explodir.

Protesto do movimento "Morar em Lisboa", 

realizado em abril de 2017

O Movimento Morar em Lisboa (MML), integrado por mais de 30 associações locais, ressalta os problemas de habitação que os lisboetas vêm enfrentando em decorrência do turismo e das políticas adotadas. Os valores de habitação subiram drasticamente de 2014 a 2017. Houve inflação de 13% a 36% nos alugueis e de 46% nos valores dos imóveis à venda. Assim, a oferta de locação por longa duração tem se tornado cada vez mais escassa.


Em contrapartida, a Rádio Tuk Tuk e Alis Ubbo anuncia também a tendência crescente da diminuição do número de turistas das ruas de Lisboa, que estão começando a preferir Turquia e Egito, destinos considerados mais baratos. Lisboa subiu 44 posições no ranking de cidades mais caras para se viver (Estudo Global Mercer 2018), assumindo a 93ª posição, superando inclusive o Rio de Janeiro, que perdeu 43 posições e agora ocupa o 99ª lugar.

* Cristiana Giustino é gestora e produtora cultural

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Niterói tem programação especial no Dia Nacional do Livro


Projeto Literatura na Varanda promove evento com a participação de escritores na Fundação Municipal de Educação
  
O escritor Jordão Pablo de Pão, membro titular da Academia
Niteroiense de Letras será o mediador do evento
(foto: divulgação) 
O projeto Literatura na Varanda promove na próxima segunda, dia 29 de outubro, a partir das 16h, o Dia Nacional do Livro. O evento terá a participação dos escritores: Anabelle Loivos Considera, Fernanda Bortone, Paulo de Carvalho, Tchello D'Barros e Winter Bastos. A mediação será feita pelo escritor, produtor literário, revisor de texto, professor de Literatura e Língua Portuguesa e Membro Titular da Academia Niteroiense de Letras Jordão Pablo de Pão. O evento tem entrada franca e será realizado no Auditório Amaury Pereira Muniz, na Fundação Municipal de Educação. O evento é uma parceria com a Coordenação de Promoção da Leitura (SEMECT/FME).


O projeto Literatura na Varanda, organizado por Tânia Ribeiro Roxo, promove encontros literários desde 2016. De acordo com ela, este é o segundo ano em que a data é comemorada. “´Não podemos deixar passar em branco uma data como essa. O incentivo à leitura tem toda importância para a formação de leitores e seres humanos melhores em nossa sociedade. Como dizia Monteiro Lobato: ‘Um país se faz com homens e livros’, comenta.
A criação do "Dia Nacional do Livro" faz referência a data de fundação da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A fundação ocorreu em 29 de outubro de 1810 pela Coroa Portuguesa. Na época, foi trazido para o local um grande acervo da Real Biblioteca Portuguesa. A obra de Tomás Antônio Gonzaga "Marília de Dirceu", em 1808, foi o primeiro livro editado no Brasil. Hoje, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é a maior da América Latina e está entre as dez maiores do mundo.
Durante o encontro, haverá doação de livros e os participantes estarão autografando as suas obras. Outras informações através do contato (WhatsApp): (21) 99117-1324. A Fundação Municipal de Educação fica na rua Visconde do Uruguai, 414 - Centro – Niterói.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O fantasma da censura ronda... Portugal

Um dos principais festivais de cinema do país denuncia pressões diplomáticas sobre sua programação

Por Cristiana Giustino *
(de Lisboa, especial para o CASA DA GENTE)

O DocLisboa, festival internacional de cinema dedicado ao documentário, acontece este mês em várias salas da capital portuguesa. São 243 longas, médias e curtas de 54 países, inclusive do Brasil, exibidos nos “ecrãs” lisboetas, como chamam por aqui as telas. Aplaudido pela crítica mundial especializada e amplamente reconhecido pelos principais festivais internacionais do gênero, o DocLisboa acumulou mais de 350 mil espectadores ao longo de suas 16 edições. Mas a grandeza e importância do festival não impediram que este sofresse, por parte de duas Embaixadas, investidas oficiais para mudanças em sua programação.

Segundo Cíntia Gil, uma das diretoras do festival, é a primeira vez que o DocLisboa sofre pressões diplomáticas. "Considero que o filme de Aliona Polunina é uma prova de apoio desta à política agressiva do Kremlin a respeito da Ucrânia", lê-se na carta enviada pela Embaixada da Ucrânia à direção do festival. O objetivo era retirar da programação o filme Their own Republic, de Aliona Polunina, selecionado para a competição internacional.

Their own Republic, alvo da diplomacia ucraniana

O outro foco de pressão teria vindo da representação turca, que questionou a redação das sinopses de dois dos filmes em programa. A “queixa” foi feita numa reunião da direção do festival com uma representante da embaixada da Turquia, a pedido desta. A representante queria a retirada das sinopses de dois filmes – Yol: The Full Version e Armenia, Cradle of Humanity– das expressões "aniquilação do povo curdo" e, referindo-se à Arménia, "local de um dos genocídios mais violentos do século passado".

As referidas pressões não funcionaram. A direção do DocLisboa trouxe a público os fatos e tanto filmes quanto as redações originais das sinopses foram mantidos na 16ª edição do festival.

Documentários brasileiros

O Brasil tem cinco títulos presentes na programação. Alma Clandestina (2018), de Jose Barahona, tem estreia mundial em Lisboa e apresenta a biografia da ativista política Maria Auxiliadora Lara Barcelos, que lutou contra a ditadura brasileira nos anos 1960, foi presa, torturada e banida do Brasil, suicidando-se em Berlim, em 1976. Na mostra Cinema de Urgência temos Operações de Garantia da Lei e da Ordem (2017), de Júlia Murat, que trata das disputas de narrativas em torno das manifestações de junho de 2013.

Alma Clandestina, de Jose Barahona

Também presentes o média-metragem Ava Yvy Vera- A Terra do Povo do Raio (2016), realizado por um coletivo indígena, que conta a história da resistência deste povo, e ainda os curtas Maré (2018), de Amaranta Cesar, e Tabu, Propriedade Privada (2018), de Maria Ganem, uma coprodução Brasil e Portugal. O primeiro retrata três gerações de mulheres quilombolas e suas inquietações. O segundo problematiza o encontro entre os europeus e nativos do Taiti a partir de registros de viagem dos anos 1960.

O Brasil conta também com a presença de dois jovens realizadores brasileiros nas oficinas do DocLisboa. A roteirista mineira Deborah Viegas traz seu texto Amor e Medos Estranhos, à Oficina de Escrita e Desenvolvimento de Projeto, tutorada por Marta Andreu. De Fortaleza vem o produtor Leonardo Moura Mateus com o projeto Crime, para a Oficina de Desenvolvimento em Diálogo tutorada por Andrés Duque.

Alguns destaques da programação

Homenagem a Luis Ospina – O mais importante realizador colombiano contemporâneo é o convidado de honra do DocLisboa. Fundador do Grupo de Cali e expoente do cinema independente da Colômbia, Ospina é autor de uma vasta filmografia, entre ficções, documentários e filmes experimentais, que trabalha a intersecção entre audiovisual e artes visuais, apresentando uma sociedade colombiana para além dos estereótipos.

Parceria entre DocLisboa e ModaLisboa – O principal evento de moda da cidade aliou-se ao festival de cinema para a sessão de estreia do filme Westwood: Punk, Icon, Activist, sobre a dama do punk rock Vivienne Westwood. A diretora do doc, Lorna Tucker, debate moda e ativismo com a designer e pesquisadora Olga Noronha.

Olhar crítico sobre mudanças na cidade de LisboaAlisUbbo (2018), do português Paulo Abreu, acompanha com ironia os dois últimos anos de mudanças na paisagem urbana lisboeta em decorrência do grande crescimento do turismo.

O distópico Alis Ubbo

O novo Fahrenheit de Michael Moore – Não se trata de Fahrenheit 9/11, de 2004. O realizador exibe no DocLisboa seu novo documentário, Fahrenheit 11/9, em que busca entender como Donald Trump foi eleito. Moore havia previsto a vitória do milionário seis meses antes das eleições de 2016.

Um filme que dura quase o dia inteiro – Filmado entre 2005 e 2017, Dead Souls (2018), uma coprodução China e França, dá voz aos sobreviventes de um capítulo sombrio da história da China: os campos de “reeducação” chineses, campos de trabalho forçado. A projeção é, por assim dizer, intensa. São mais de 8 horas de duração.        
                                           
*Cristiana Giustino é gestora e produtora cultural